A Vizinha do 302


A vizinha do 302 aprendeu a sorrir com os olhos inchados.

No elevador, dizia que tinha batido a porta do armário no próprio rosto. Na padaria, ria baixo quando alguém perguntava do braço roxo. Em casa, o silêncio era mais alto que qualquer grito. E o silêncio, diferente do que muitos pensam, não protege. Ele aprisiona.

A violência doméstica não começa com o tapa. Começa com o controle, com o “você não precisa trabalhar”, com o “essa roupa não”, com o afastamento das amigas, da família, do mundo. Quando a agressão física chega, ela já está cercada por medo, culpa e vergonha — sentimentos que não pertencem à vítima, mas que pesam como se pertencessem.

É preciso dizer com clareza: nenhuma agressão é pequena demais para ser denunciada. Empurrões, ameaças, humilhações constantes, controle financeiro, violência psicológica — tudo isso é violência. E violência é crime.
Denunciar não é destruir uma família. É interromper um ciclo que pode terminar em tragédia.

No Brasil, a proteção é garantida pela Lei Maria da Penha, criada para amparar mulheres em situação de violência doméstica. Ela permite medidas protetivas urgentes, afastamento do agressor do lar e outras formas de proteção.

Em caso de perigo imediato, ligue 190. A chamada é gratuita e pode ser feita de qualquer telefone. 

E se ainda houver dúvida, que ela seja desfeita agora: o medo é compreensível, mas não pode ser maior que a sua vida.

Muitas mulheres permanecem porque acreditam que ele vai mudar. Porque ele pede desculpas. Porque chora. Porque promete. Porque diz que ama. Mas amor não machuca, não ameaça, não controla, não humilha.

O ciclo costuma se repetir: tensão, explosão, arrependimento, lua de mel. Depois, tudo começa outra vez — quase sempre mais intenso. A cada repetição, o risco aumenta.

Por isso, planejar também é um ato de coragem.

Se possível:

Separe documentos seus e dos filhos.

Tenha um pequeno valor guardado.

Deixe uma bolsa pronta com itens essenciais.

Avise alguém de confiança sobre o que está acontecendo.

Memorize números importantes.


Se houver filhos, lembre-se: eles não “não entendem”. Eles sentem. Crescer em um ambiente de agressão deixa marcas profundas. Romper o ciclo é também protegê-los.

Ao ligar 190, você não está exagerando. Está exercendo um direito. A polícia é treinada para atender casos de violência doméstica. Quanto mais cedo a intervenção acontecer, maiores as chances de proteção efetiva.

E se a voz falhar, que a ação fale por você. Uma ligação silenciosa. Uma mensagem para uma amiga. Um pedido de ajuda disfarçado. Um vizinho acionado. Um atendimento médico onde você sussurra a verdade.

Denunciar não é fraqueza. É ruptura.
É dizer que seu corpo não é território de ninguém.
É afirmar que sua dignidade não é negociável.

A violência doméstica só continua quando encontra silêncio. Quando encontra denúncia, encontra limite.

E limite é o começo da liberdade.

Vinícius Silvério Muniz da Silva 
Poeta Jovem Barueri 
Sex, 13/Fev - 08:41

Comentários

Postagens mais visitadas