A Solidão e a Vigília
Onde minha tia Ester viveu a vida, sem ninguém.
Um portão que se abria para a mais pura solidão,
E paredes que guardavam um silente coração.
Você, tia, foi sinônimo daquele lugar,
Uma vida inteira vendo o tempo passar.
Eu via a sua força, mas via a sua espera,
Naquela casa antiga, que seu mundo todo era.
Até que a fortaleza começou a se curvar,
E a doença veio, fria, para lhe visitar.
E eu, com o peito apertado, prometi ali,
Que o "sozinha e sem ninguém" não ia mais ser assim.
Eu tentei ao máximo, juro que tentei.
Nas noites mal dormidas, o cansaço eu ignorei.
Virando o corpo frágil, tão dolorido e parco,
Cuidando das escaras, as marcas do seu barco.
E em meio à penumbra, sua voz que partia,
Seus pedidos de perdão, que a noite repetia...
Ecoando no quarto, baixinho, como um mantra,
Uma dor antiga que a febre só dissipa em pranto.
Eu lembro de você antes.
Antes do fim chegar.
Seu olhar já distante, difícil de focar.
A mão que segurei, já frágil, sem calor,
Mas ainda era você, resistindo à dor.
Eu guardo essa imagem, a sua despedida,
A essência da minha tia, ainda em vida.
E então, o realismo. A imagem que me corta.
O quarto em silêncio. A última porta.
Eu a vi desfalecida, o ar que se ausentou,
A luta terminada, o peito que parou.
Ali, naquele leito, a paz enfim lhe achou,
E a solidão da casa, de vez, se encerrou.
Hoje, passo em Guarulhos. A casa pode estar
Vazia, ou com outros, mas eu hei de lembrar.
Não só da sua vida tão só e singular,
Mas do meu esforço em tentar lhe cuidar.
E carrego comigo, entre a dor e o carinho,
Que em seu último trecho, você não esteve a caminho.
Vinícius Silvério Muniz da Silva
Poeta Jovem Barueri
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