A Casa Sabia


A casa sabia...

Sabia pelo jeito que a chave girava na porta — brusca demais. Sabia pelo peso dos passos — duros demais. Sabia pelo silêncio que vinha depois — longo demais.

O sofá foi o primeiro a entender. Ele acolhia o corpo dela todas as noites, não para descanso, mas para esconder o cansaço. Sentia o tremor nas mãos dela, via as lágrimas que ela limpava rápido, como quem tem vergonha até da própria dor. Ele guardava marcas invisíveis, afundamentos que não eram só do peso do corpo, mas do peso da humilhação.

A mesa da cozinha também sabia. Já ouvira pratos se partirem, palavras cortarem mais que cacos. Ela, que nasceu para reunir, virou trincheira. Sobre sua madeira, punhos batiam, copos eram lançados, promessas quebradas eram espalhadas como migalhas. E ainda assim, no dia seguinte, ela sustentava o café posto com cuidado, como se a normalidade fosse possível.

As paredes… ah, as paredes eram arquivos vivos.

Elas escutavam tudo.

Escutavam os gritos abafados, os pedidos de “para”, as desculpas repetidas como um roteiro cansado. Absorviam o som do choro preso na garganta. Sentiam o impacto dos corpos, o eco da violência que nunca chegava aos vizinhos porque ela sempre dizia que estava tudo bem.

Não estava.

O espelho do quarto era testemunha das tentativas de esconder hematomas. Via maquiagem cobrindo o que não deveria existir. Via os olhos dela tentando se convencer de que aquilo era amor, de que ele ia mudar, de que era só uma fase.

Mas a casa sabia: não era fase. Era ciclo.

A cada explosão, depois vinha o silêncio. Um silêncio pesado, sufocante. Um silêncio que parecia proteção, mas era prisão. Ele pedia silêncio. Ela oferecia silêncio. E o silêncio, cúmplice, mantinha tudo de pé — menos ela.

Os móveis não podiam gritar. As paredes não podiam sair correndo pela rua. Mas, se pudessem, diriam às mulheres que atravessam portas como aquela:

O silêncio não salva.
O silêncio não protege.
O silêncio não transforma agressor em amor.

O silêncio alimenta a violência.

Cada marca na parede é um pedido de socorro. Cada objeto quebrado é uma prova. Cada noite calada é mais um dia de dor.

A casa inteira torce para que um dia a porta se abra de outro jeito — não pela força dele, mas pela coragem dela. Que os passos sejam firmes, não de medo, mas de decisão. Que as paredes finalmente escutem o som mais importante de todos:

A denúncia.

Porque silêncio não é abrigo.
É cela.

E ninguém nasceu para morar na própria prisão.

Vinícius Silvério Muniz da Silva 
Poeta Jovem Barueri 
Qua, 11/Fev - 12:22

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