Preto No banco
Tem dias que a gente acorda e percebe que o filtro da vida mudou de lugar. Não é bem uma tristeza agoniada, daquelas que arrancam lágrimas no meio da sala; é um silêncio esquisito. Como se alguém tivesse passado a mão de leve numa tela de pintura e borrado todas as cores, deixando só um rastro de cinza por cima de tudo.
A rotina continua rodando, a gente levanta, faz o café, responde às mensagens, mas parece que estamos assistindo a um filme antigo, em preto e branco, onde a gente mesmo faz o papel principal sem saber muito bem o roteiro. É aquela sensação incômoda de que a vida perdeu o tom, sabe? As ruas parecem mais distantes, o sol de meio-dia não aquece a pele do mesmo jeito, e o caminho é feito sem direção, guiado só pela pura e simples força do hábito.
E o pior é o barulho do mundo que vira nada. Podem tocar a música mais bonita do universo, podem gritar o seu nome com afeto: não há dissonância ou som que toque o coração. A gente vira uma espécie de ilha isolada. O peito fica hermético, blindado por uma casca grossa de apatia que não deixa nem a dor e nem a alegria entrarem.
Olha-se para os lados e tudo é sombra e é papel. A vida perdeu a tridimensionalidade. As coisas parecem planas, frágeis, fáceis de amassar e jogar fora. A gente perde o contato com a consistência das coisas reais.
Na maré alta desse vazio, até a memória falha: esqueci o gosto do mel. Aquela lembrança de quando um abraço resolvia metade dos dias ruins, ou de quando uma besteira qualquer arrancava uma risada sincera... tudo isso parece história de outra pessoa, um conto que a gente leu num livro emprestado.
Perde-se, no fim das contas, a graça da ilusão. Porque a gente sabe que viver exige um tantinho de ingenuidade, de acreditar que amanhã o dia vai ser mais leve, que vale a pena planejar o próximo mês, que o futuro guarda alguma surpresa boa. Mas, quando o cinza toma conta, a ilusão parece bobagem.
Ainda assim, mesmo nesse estado de névoa e sombra, vale lembrar de uma coisa: o fato de doer (ou de doer justamente pela falta de dor) prova que a gente ainda está aqui. O cinza é pesado, mas as cores não morrem; elas só fecham os olhos por um tempo, esperando a tempestade passar para, bem devagarinho, pintarem tudo de novo.
Vinícius Silvério Muniz da Silva
Poeta Jovem Barueri
Sex, 28/Ago, 2026 - 12:23
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