Cicatrizes de Outono



As vitrines se enfeitam com camisas dobradas milimetricamente, laços vistosos e cartazes que anunciam o amor incondicional em tons pasteis. Para o mundo, é o segundo domingo de agosto. Para mim, é o dia em que o calendário decide reabrir as gavetas que eu passei o ano inteiro tentando trancar com cadeados de ferro.

Não há abraço guardado na memória, não há conselho terno ou exemplo a ser seguido. O que existe é uma arquitetura de ruínas. Cada data comemorativa funciona como um holofote cruel que ilumina os traumas fincados fundo na minha história, obra de quem deveria ter sido porto seguro e escolheu ser tempestade. Eu era apenas um garoto que queria um pai presente e hoje me restou um abandono eterno. Cresci aprendendo que a mão que acalenta pode ser a mesma que fere, e esse aprendizado deixou marcas que nem o tempo teve a decência de apagar.

O resultado dessa herança amarga é uma muralha intransponível. A desconfiança virou minha pele; olho para o outro e o que vejo é a promessa implícita de uma nova rasteira. Fechei-me tanto que nem com minha mãe consigo falar sobre mim. O eco da minha própria voz soa estranho aos meus ouvidos, como se partisse de um estrangeiro. Isolei-me do mundo, não por soberba, mas por um pavor paralisante: o medo irracional de falhar com as pessoas, de repetir os ciclos, de ser a decepção que os outros não merecem carregar.

E, então, vem a noite.
Quando o silêncio da casa despenca sobre mim, o rancor desperta e começa a me corroer por dentro. É um ácido lento que consome as horas, misturando-se a um vazio denso, cinzento, que anestesia qualquer possibilidade de sentimento. Não sinto raiva, não sinto alegria; sinto apenas a ausência de calor. Sou uma casa abandonada cujas janelas batem com o vento da madrugada.

É isso que me destrói dia após dia: não apenas o que me fizeram no passado, mas a forma como permiti que a sombra dele continuasse ditando o ritmo da minha vida, transformando minha existência em uma espera silenciosa pelo próximo golpe que nunca cessa de vir.


Vinicius Silvério Muniz da Silva 
Poeta Jovem Barueri 
Dom, 09/Ago 2026 - 22:58

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