A Lenta Morte dos Valores Humanos
A Lenta Morte dos Valores Humanos
Ele começou a perceber que alguma coisa estava desaparecendo.
Não era uma pessoa. Não era um lugar. Não era sequer uma lembrança específica.
Era algo muito maior: os pequenos valores que, durante gerações, ensinaram as pessoas a olhar umas para as outras.
O narrador daquela história observava tudo em silêncio. Via uma geração nascer cercada de tecnologia e, ao mesmo tempo, crescer cada vez mais distante daquilo que nenhuma tecnologia conseguiria substituir: a presença humana.
Ele olhava para os mais velhos e lembrava que, antigamente, respeitar suas preferências também era uma forma de amor.
O avô queria sentar na varanda? Sentavam com ele.
A avó queria contar novamente aquela história antiga? Alguém escutava.
Ela gostava de determinada música, de determinado programa ou simplesmente queria conversar? Havia quem respeitasse.
Hoje, muitas vezes, o idoso é tratado como alguém que precisa se adaptar ao mundo, quando deveria ser lembrado como alguém que ajudou a construir o mundo em que os outros vivem.
O narrador pensava nisso enquanto observava as praias.
Antigamente, a praia era lugar de encontro, descanso, família e contemplação. Hoje, em alguns lugares, depois que a multidão vai embora, ficam copos, embalagens, garrafas e outros dejetos espalhados pela areia.
Não era apenas sujeira.
Era um retrato.
Porque quem não respeita o espaço público talvez ainda não tenha aprendido que o mundo não termina onde termina a própria vontade.
E havia também as fotografias.
Fotografias de tudo.
Do mar.
Da comida.
Do pôr do sol.
Dos amigos.
Dos pés na areia.
Do próprio rosto diante da paisagem.
O problema não estava em fotografar.
O problema era quando a fotografia deixava de ser lembrança e passava a ser mais importante que o próprio momento.
O narrador lembrava das antigas festas de aniversário.
As pessoas chegavam, cumprimentavam o aniversariante, sentavam-se próximas e conversavam. Às vezes ligavam antes ou depois para desejar felicidade. O importante era a pessoa.
Hoje, muitas comemorações parecem precisar de uma câmera testemunhando cada segundo.
O bolo precisa ser filmado.
O abraço precisa ser registrado.
A música precisa virar vídeo.
O aniversário precisa virar publicação.
E, em meio a tantos registros, às vezes ninguém percebe que deixou de viver a festa.
Ele também sentia falta dos almoços na casa dos avós.
A mesa era grande.
A comida era simples.
Mas a conversa era enorme.
Falava-se sobre a vida, sobre o trabalho, sobre os filhos, sobre os vizinhos, sobre histórias antigas.
Na casa da mãe acontecia a mesma coisa.
O almoço era um encontro.
O jantar era uma oportunidade de saber como o outro estava.
Hoje, em algumas famílias, cinco pessoas podem estar sentadas à mesma mesa e, ainda assim, parecerem estar em cinco mundos diferentes.
Cada uma segura um celular.
Cada uma olha para uma tela.
Cada uma conversa com alguém que não está presente.
E quem está ao lado fica esperando por uma atenção que nunca chega.
O narrador chegou a pensar que o celular havia criado uma situação curiosa: as pessoas passaram a enxergar quem estava longe e deixaram de enxergar quem estava perto.
Um vídeo interessante aparece.
E a pessoa ao lado desaparece.
Uma mensagem chega.
E a conversa presencial perde importância.
Uma notificação vibra.
E alguém interrompe uma história que estava sendo contada.
Era como se a presença humana tivesse se tornado menos importante do que a presença digital.
Até nas igrejas ele percebeu mudanças.
Havia quem chegasse diante das Escrituras Sagradas e, em vez de abrir a Bíblia para acompanhar a leitura, abrisse o celular.
Não havia nada de errado em utilizar a tecnologia para acessar a Bíblia.
O problema estava quando o mesmo aparelho que servia para ler a Palavra também servia para interromper a concentração com mensagens, vídeos e notificações.
A tecnologia não era o inimigo.
A falta de equilíbrio era.
E então ele pensava nas crianças.
Pais cansados, sem paciência, entregavam um celular aos filhos para conseguir alguns minutos de silêncio.
A criança parava de pedir atenção.
Parava de chamar.
Parava de brincar.
E os adultos conseguiam descansar.
Mas, enquanto a criança ficava quieta, alguma coisa importante deixava de acontecer.
Ela deixava de brincar com os pais.
De ouvir histórias.
De correr.
De imaginar.
De criar seus próprios brinquedos.
De aprender que atenção também é uma forma de carinho.
O celular passou a ocupar o espaço que antes pertencia à infância.
E o narrador sabia que nenhuma tela conseguiria substituir um pai ou uma mãe brincando no chão com o próprio filho.
Depois, ele observava os chamados encontros românticos.
Um casal chegava a um restaurante bonito.
Mesa elegante.
Luz agradável.
Comida sofisticada.
Um momento que poderia ser inesquecível.
Mas os dois colocavam os celulares sobre a mesa.
Fotografavam o prato.
Fotografavam a decoração.
Fotografavam um ao outro.
Publicavam.
Criavam hashtags.
E, depois de registrar o encontro inteiro, talvez percebessem que quase não haviam conversado.
Era uma saída a dois.
Mas cada um parecia acompanhado pelo próprio aparelho.
O museu também havia mudado.
Antes, era um lugar para contemplar obras, conhecer histórias e imaginar a vida de pessoas que viveram há séculos.
Agora, em muitos momentos, a obra de arte parece servir apenas como cenário para uma fotografia.
A pessoa entra.
Encontra a obra.
Aponta o celular.
Fotografa.
Publica.
E vai embora.
Talvez nem tenha lido a placa ao lado.
Talvez nem saiba quem pintou.
Talvez não tenha observado a obra por mais de alguns segundos.
A galeria de arte acabou se transformando, para alguns, em uma galeria de celulares.
E então veio o momento que mais incomodava o narrador.
Os velórios.
Até diante da morte, algumas pessoas pareciam esquecer o respeito.
Havia quem transformasse o último adeus em cenário para fotografias.
Gente registrando o ambiente.
Gente registrando pessoas.
Gente publicando imagens sem sequer conhecer verdadeiramente quem havia partido.
O morto, que deveria receber silêncio e respeito, acabava transformado em conteúdo.
E naquele instante o narrador compreendeu que talvez a morte mais preocupante não fosse a morte física.
Era a morte da sensibilidade.
A morte da empatia.
A morte da capacidade de perceber quando uma situação exige silêncio, quando alguém precisa de abraço, quando um idoso precisa ser ouvido, quando uma criança precisa de presença, quando um amigo precisa de atenção ou quando simplesmente não é hora de pegar o celular.
Ele não culpava uma geração inteira.
Também não acreditava que todo jovem fosse desrespeitoso.
Havia jovens incríveis.
Havia adultos conscientes.
Havia idosos cheios de energia.
Havia famílias que ainda se reuniam sem celulares sobre a mesa.
Havia pais que ainda brincavam com seus filhos.
Havia pessoas que ainda sabiam guardar o aparelho e olhar nos olhos.
Por isso, sua crônica não era contra a tecnologia.
Era um alerta contra a substituição da vida pela tela.
Porque fotografia nenhuma substitui uma lembrança vivida.
Hashtag nenhuma substitui uma conversa.
Vídeo nenhum substitui um abraço.
Mensagem nenhuma substitui a presença.
E celular nenhum deveria ser capaz de fazer alguém esquecer que existe uma pessoa sentada ao seu lado.
Naquela noite, o narrador desligou o próprio aparelho.
Olhou para as pessoas ao redor.
E percebeu algo simples.
Talvez os valores humanos não estivessem mortos.
Talvez estivessem apenas esperando que alguém os chamasse de volta.
E ele decidiu começar.
Guardou o celular.
Olhou nos olhos de quem estava diante dele.
E perguntou:
— Como foi o seu dia?
Foi uma pergunta pequena.
Mas, naquele mundo cada vez mais conectado e cada vez menos presente, talvez aquela pergunta fosse uma das formas mais bonitas de resistência.
Porque, enquanto alguém ainda tiver disposição para ouvir outro ser humano, os valores humanos ainda estarão vivos.
Poeta Jovem Barueri
Vinícius Silvério Muniz da Silva Silva
16/08/2026 - Dom 16/Ago, 2026 - 20:45
Comentários