Do Esfacelo do Ânimo e da Busca de Si Mesmo
Nos ermos d’alma jaz um vulto escuro,
que outrora fora mancebo de alvorada;
mas hoje, em sombras, busca o chão mais duro,
e em cada espelho vê-se alma dilacerada.
O tempo, esse algoz de faces frias,
tolheu-lhe o seio, roubou-lhe o brio;
são já vazias as vozes e as orgias,
que outrora enchiam de canto o rio.
Peregrino vai, de si mesmo distante,
trazendo em passos peso de desterro;
qual sombra errante em bosque vacilante,
luta em silêncio contra o próprio erro.
Não mais se mira no vidro cristalino,
pois vê apenas vulto sem figura;
e o ser outrora firme, doce e divino,
jaz dissoluto em névoa turva e escura.
"Quem sou?" — pergunta ao vento que não fala,
às pedras mudas, ao rio sem resposta;
e o peito, em turba, busca a antiga gala,
mas encontra só memória já posta.
O mancebo de outrora, em si desfeito,
vaga em sendas que a treva lhe consome;
e o nome que trazia — doce preceito —
já não o sente: é cinza, é pó, sem nome.
Porém, inda acende, em brasa oculta e fria,
um lume tênue, quase a se extinguir;
talvez no ocaso renasça a poesia,
talvez na queda descubra o porvir.
E assim peleja, oculto, contra o nada,
na ânsia de forjar-se em novo aço;
que a dor, embora funda, não é estrada,
senão ferida que molda o abraço.
E se o reencontro tarda em sua lida,
não deixa o peito de clamar por fé;
pois quem se perde pode achar guarida,
no mesmo abismo onde pensou: “Já não sou quem é.”
Vinícius Silvério Muniz da Silva
Poeta Jovem Barueri
Dom, 24 de agosto de 2025
18:17 - Tentando me reencontrar
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